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A Violência Contra a Enfermagem, Infelizmente, é Real

19 de agosto de 2026 por filipesoaresImprimir Imprimir


Quando pensamos nos profissionais de saúde que atuam na linha de frente — em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), pronto-socorros e UTIs —, costumamos associá-los ao salvamento de vidas, decisões rápidas e dedicação. O que raramente entra no debate público, porém, é a frequência e a gravidade das agressões enfrentadas cotidianamente por enfermeiros, técnicos e auxiliares.
Em um depoimento revelador concedido ao canal do Coren-MG, o enfermeiro Paulo Roberto, com 20 anos de experiência em urgência e emergência, expôs um lado alarmante e muitas vezes silenciado da profissão: a violência moral, verbal e até física no ambiente de trabalho.

A Naturalização do Abuso

Uma das maiores dificuldades apontadas por Paulo é a banalização das agressões. Xingamentos, humilhações verbais e pressão psicológica constante são comumente justificadas sob a premissa de que “o paciente ou familiar estava em momento de estresse”.
“Essas situações de agressão passam de forma naturalizada. Faz parte do cotidiano, mas as pessoas não percebem que você está sendo agredido ali naquele momento.” — Paulo Roberto
Além do desgaste emocional diário, o profissional de saúde enfrenta problemas estruturais, como a rotatividade das equipes e a precarização do trabalho. Em cenários de urgência, em que a decisão precisa ser tomada em frações de segundo, a falta de uma equipe coesa e integrada aumenta ainda mais a vulnerabilidade dos trabalhadores.

Quando a Ameaça se Torna Real

As agressões verbais infelizmente desdobram-se, em certos casos, em episódios extremos de risco real à vida. No relato, o enfermeiro compartilha um caso recente e marcante: ao constatar que um paciente assíduo no serviço simulava uma crise para entrar na unidade, ele orientou o homem a interromper a cena.
A reação culminou em ameaças e, de madrugada, o paciente retornou ao local supostamente armado acompanhado de comparsas para tirarem satisfações.
As consequências desses episódios ultrapassam o plantão:
  • Impacto na Saúde Mental: Ansiedade extrema, estresse pós-traumático e sensação constante de insegurança.
  • Desafios Burocráticos: A necessidade de afastamento e transferência de setor em redes públicas envolve processos lentos, restrições de vínculo e pouca oferta de vagas adequadas.
  • Acolhimento Insuficiente: Embora haja apoio emocional por parte dos colegas de trabalho, as instituições de saúde ainda carecem de protocolos consolidados para suporte psicológico e jurídico imediato ao profissional agredido.

O Que Precisa Mudar?

A violência contra a enfermagem não afeta apenas quem cuida; ela impacta diretamente a qualidade da assistência prestada a toda a sociedade. Para reverter esse cenário, é urgente:
  1. Conscientização da Sociedade: Compreender que o estresse do atendimento não justifica desrespeito ou agressões contra os profissionais.
  2. Notificação e Denúncia: Notificar formalmente qualquer episódio de violência — seja verbal, psicológica ou física — para tirar o problema da invisibilidade.
  3. Suporte Institucional: Garantir apoio psicológico contínuo, reforço na segurança patrimonial e fluxos administrativos ágeis para proteger o servidor ameaçado.
Apesar dos imensos desafios, Paulo destaca que a enfermagem continua sendo uma carreira ampla e promissora — que vai muito além do atendimento direto em pronto-socorros, abrangendo empreendedorismo, auditoria, gestão e pesquisa. No entanto, assegurar a integridade e a dignidade de quem atua na ponta é o primeiro passo para fortalecer todo o sistema de saúde.