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Esclerose Múltipla: a Atuação da Enfermagem

28 de agosto de 2020 por filipesoaresImprimir Imprimir


Quando uma pessoa recebe o diagnóstico de Esclerose Múltipla (EM), é comum ser bombardeada por termos médicos assustadores: doença autoimune, desmielinizante, terapia injetável ou pulsoterapia. Para quem é jovem e está no auge da vida produtiva, o impacto inicial pode ser avassalador.
Com base nas explicações detalhadas da palestrante e enfermeira Dra. Ivone, em apresentação promovida pelo Coren SP, preparamos este guia informativo sobre a doença e a atuação fundamental da enfermagem no tratamento.

O que é a Esclerose Múltipla?

A Esclerose Múltipla é uma doença inflamatória, autoimune, crônica, degenerativa e progressiva que afeta o Sistema Nervoso Central (encéfalo, tronco cerebral e medula).
No corpo humano saudável, os nervos são revestidos por uma camada protetora chamada bainha de mielina. O impulso nervoso viaja por essa estrutura a uma velocidade incrível: cerca de 400 km/h.
Na pessoa com EM, por razões ainda em estudo, o próprio sistema imunológico ataca e destrói essa bainha (processo chamado de desmielinização). Quando a mielina é danificada, a transmissão do sinal nervoso despenca para cerca de 4 km/h. Na prática, é como dar um comando para o corpo e a resposta vir de forma extremamente lentificada ou com falhas.

Principais Características e Sintomas:

  • Perfil mais atingido: Predominantemente adultos jovens (início dos sintomas por volta dos 25 anos), afetando cerca de 2,5 a 3 mulheres para cada homem.
  • Causas: Embora seja confirmada como autoimune, sua causa exata é desconhecida. Acredita-se em uma combinação de predisposição genética e fatores ambientais (como infecções virais prévias, tabagismo e clima).
  • Sintomas frequentes:
    • Diplopia (Visão dupla): Alteração visual comum devido ao comprometimento do nervo óptico.
    • Fadiga extrema: Não é o cansaço comum do dia a dia, mas uma exaustão profunda mesmo após uma noite de sono.
    • Alterações de sensibilidade e dores: Sensação de formigamento, queimação e dores neuropáticas difíceis de tratar.
    • Disfunções urinárias: Urgência ou incontinência urinária provocadas pela perda de controle nervoso sobre a bexiga.

Entendendo os “Surtos” e os Tratamentos

O surto (ou recaída) funciona como um “curto-circuito” no nervo afetado. É um episódio inflamatório com duração superior a 24 horas que provoca piora neurológica no local agredido.
Para tratar a crise e os sintomas de longo prazo, o sistema de saúde dispõe de diferentes abordagens:
  1. Pulsoterapia (Corticoterapia): Utilizada no momento do surto para cessar a inflamação de forma rápida. Consiste na aplicação endovenosa de altas doses de corticosteroides (como a metilprednisolona) por 3 a 5 dias.
  2. Imunomoduladores e Imunosupressores: Medicamentos de uso diário, semanal ou mensal (injetáveis ou orais) que ajudam a diminuir a frequência e a intensidade dos surtos.
  3. Anticorpos Monoclonais: Terapias mais modernas administradas via infusão.
Acesso ao Tratamento: Medicamentos para EM são classificados como de alto custo. No Brasil, eles são fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) por meio de centros de referência e farmácias de alto custo.

O Papel do Enfermeiro e o Foco no Autocuidado

A enfermagem desempenha um papel central na jornada do paciente com Esclerose Múltipla. Baseado em teorias de enfermagem voltadas ao autocuidado (como a Teoria de Orem), o objetivo é orientar o paciente para que ele conquiste a máxima independência e segurança no tratamento.

Cuidados na Pulsoterapia

Durante as sessões de corticoides, a equipe de enfermagem atenta-se para controlar os efeitos colaterais das altas doses:
  • Monitoramento constante da pressão arterial e glicemia.
  • Orientação para redução de sódio na dieta e hidratação intensa.
  • Cuidados com o risco aumentado de infecções e alterações gástricas.

Dicas Práticas para Autoaplicação e Armazenamento

Para quem utiliza medicamentos injetáveis em casa (subcutâneos ou intramusculares), os cuidados diários garantem a eficácia do remédio e evitam complicações:
  • Rodízio de Locais: Nunca aplicar a medicação no mesmo ponto de forma repetida. É preciso alternar entre coxas, abdômen, braços e glúteos para evitar complicações como lipodistrofia (perda ou alteração do tecido gorduroso) ou lesões na pele.
  • Ângulo Correto: A aplicação com dispositivos autoinjetores deve ser feita em ângulo de 90°.
  • Armazenamento da Medicação: Medicamentos refrigerados devem ser mantidos na prateleira intermediária da geladeira. Nunca guarde na porta (devido à variação de temperatura), no congelador ou no fundo da geladeira (o congelamento inutiliza a medicação).
  • Transporte Seguro: Ao retirar o medicamento na farmácia, transporte-o sempre em bolsa térmica com gelo reciclável.

Convivendo com Qualidade de Vida

Embora ainda não exista cura para a Esclerose Múltipla, o diagnóstico precoce e o acompanhamento por uma equipe multidisciplinar (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e nutricionistas) transformam o prognóstico. Adoção de hábitos saudáveis, rotina de exercícios adaptados e o apoio de associações como a ABEM (Associação Brasileira de Esclerose Múltipla) são pilares fundamentais para manter a qualidade de vida e a autonomia.