O papel da enfermagem na atenção aos povos originários vai muito além dos protocolos técnicos e procedimentos tradicionais: ele exige escuta, sensibilidade intercultural e profunda capacidade de adaptação.
Com base na palestra ministrada pelo enfermeiro Marcelo Carvalho (conselheiro do Coren-SP e integrante da Força Nacional do SUS) no canal do Coren SP, resumimos os principais pontos e desafios do cuidado de enfermagem em territórios indígenas.
Atualmente, o Brasil abriga aproximadamente 1,6 milhão de pessoas indígenas (menos de 1% da população total), divididas em cerca de 300 etnias e 240 idiomas.
Apesar de existirem 40 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) no país, muitas comunidades enfrentam contínuo risco de desassistência. Pressões territoriais — como o garimpo ilegal e a degradação ambiental — afetam diretamente as fontes de caça, pesca e água potável, gerando crises sanitárias e quadros graves de desnutrição.
Símbolos e Analogias: Para muitas etnias, o conceito ocidental de tempo (horas, dias, semanas) não faz parte do cotidiano. Orientações de medicação frequentemente exigem ilustrações (como desenhar o sol para doses matutinas e a lua para doses noturnas).
Adesão ao Tratamento: Como muitos pacientes deixam de tomar a medicação assim que os sintomas desaparecem, há um alto risco de abandono de esquemas longos (como nos casos de malária ou tuberculose), exigindo acompanhamento constante e supervisionado.
Limitação de Peso: O transporte por helicóptero ou barco impõe rígidos limites de peso para insumos, medicamentos e soros.
Condições Sanitárias e Energia: Unidades Básicas de Saúde Indígena (UBSI) frequentemente operam com energia solar limitada, banheiros rudimentares e falta de refrigeração contínua.
Gestão de Resíduos: Em locais sem coleta convencional, equipes ensinam o descarte e a destinação adequada de resíduos sólidos e embalagens industrializadas.
Respeito às Crenças Locais: A saúde para os povos originários está intrinsecamente ligada ao equilíbrio com o território. Rituais tradicionais, o uso de fogueiras e a atuação de líderes espirituais (como pajés e benzedeiras) devem ser respeitados.
Exame Clínico e Toque: O profissional deve sempre explicar o procedimento e solicitar permissão antes do exame físico, adaptando a posição de atendimento quando necessário (muitos indígenas preferem ser atendidos em redes ou no chão).
Abertura para Aceitar Diferentes Visões de Mundo: A técnica e os manuais são a parte mais simples; o maior desafio é a empatia e o respeito à diversidade cultural.
Preparo Físico e Emocional: A atuação em territórios remotos exige resiliência diante de isolamento, calor e condições adversas.
Visão Sistêmica de Saúde: Cuidar do indivíduo em um contexto indígena é indissociável de cuidar do meio ambiente em que ele vive.