25/09/2017

Vacina contra zika desenvolvida no Brasil pode evitar transmissão e proteger bebês

Testes em camundongos e macacos mostrou que vacina pode evitar que vírus atinja bebê.
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Geovane Silva com o filho Gustavo Henrique, vítima de microcefalia devido à epidemia de zika, no Hospital Oswaldo Cruz, em Recife: testes em camundongos e macacos mostrou que vacina pode evitar que vírus atinja bebê Foto: Uéslei Marcelino/Reuters/26-01-2016

RIO – Duas candidatas a vacinas contra zika em desenvolvimento no Instituto Evandro Chagas (IEC), em Belém, em parceria com instituições americanas mostraram poder prevenir a infecção pelo vírus das mães e o contágio de filhotes durante a gestação em testes com camundongos, além de serem eficazes em macacos. Os experimentos com os imunizantes, que usam vírus vivos mas atenuados com a remoção de parte de seu genoma, e assim teoricamente menos capazes de causar a doença, também revelaram outra possível sequela da zika: a infertilidade masculina, em especial se a vítima for jovem. Os resultados dos testes pré-clínicos das vacinas foram relatados na edição desta semana do periódico científico “Nature Communications”.

Nos experimentos, os pesquisadores primeiro utilizaram uma versão da vacina, denominada ZIKV-3’UTR-∆10-LAV, em que foram removidos dez dos chamados nucleotídeos, as “letras” que compõem o código do DNA, do genoma do vírus. Injetada em fêmeas de camundongos, a vacina desencadeou a desejada resposta imunológica nelas, com a produção de anticorpos contra o vírus. Posteriormente, estas mesmas fêmeas cruzaram com machos e engravidaram, sendo então inoculadas logo no início da gestação com uma cepa epidêmica e selvagem do vírus da zika, ou seja, capaz de causar a doença. Apesar disso, nenhuma ficou doente, e exames da placenta e da cabeça dos fetos mostraram uma queda expressiva na carga viral nestes tecidos, sendo que em 70% delas ela ficou abaixo do nível detectável. Segundo os cientistas, isto sugere que a vacina não só protegeu as fêmeas como evitou que o vírus afetasse os fetos.

Em seguida, os pesquisadores testaram a mesma versão do imunizante em camundongos machos. Diretor do IEC e coordenador das pesquisas com a vacina no Brasil, Pedro Vasconcelos conta que, durante os experimentos, eles observaram que os camundongos do grupo de controle, que receberam apenas uma solução salina no lugar da vacina, apresentavam uma grande redução no tamanho e peso (atrofia) dos testículos após serem infectados pelo vírus, o que os fez avaliar mais atentamente esta questão.

— Existia uma suspeita de que o zika poderia afetar os testículos por conta da sua grande expressão (quantidade) no esperma, mas ainda não havia nenhum estudo neste sentido — lembra.

Como os camundongos de laboratório atingem a maturidade sexual às 8 semanas de idade, os pesquisadores decidiram então imunizar dois grupos deles: jovens com três semanas e adultos com 15 semanas de idade. Em ambos casos, mais uma vez a vacina se mostrou capaz de desencadear uma resposta imunológica e evitar que os animais ficassem doentes depois de infectados com um vírus selvagem. Neste caso, no entanto, os cientistas destacam ainda que o imunizante também impediu que o zika atacasse os testículos dos camundongos.

Segundo os pesquisadores, exames verificaram que os animais que receberam a vacina mantiveram quantidade e mobilidade dos espermatozoides equivalente ao de camundongos saudáveis da mesma idade. Já no grupo de controle foram observadas reduções de 85% e 90% na quantidade total e na motilidade dos espermatozoides respectivamente após a inoculação com o vírus, com a consequente, e observada, redução no tamanho e peso de seus testículos, numa sequela que foi mais pronunciada nos camundongos mais jovens.

— Eles ficaram realmente estéreis — diz Vasconcelos, que ressalta, porém, que ainda não é possível afirmar que este tipo de sequela também se dá em humanos. — Mas nossos resultados indicam que vale a pena fazer esta investigação.

Dando seguimento às pesquisas, os cientistas também fizeram testes de eficácia das vacinas em macacos rhesus (Macaca mulatta). Nestas experiências, primeiro eles verificaram que a versão usada nos camundongos é segura, isto é, não provocou a doença nos animais. Por outro lado, ela também não conferiu uma resposta imune poderosa o bastante para evitar completamente a infecção por vírus selvagens. Diante disso, eles testaram outra versão da vacina em que foram removidos 20 nucleotídeos do genoma do zika, denominada ZIKV-3’UTR-∆20-LAV, obtendo a imunização.

De acordo com Vasconcelos, os experimentos mostram que as vacinas em desenvolvimento pelo IEC são promissoras. Tanto que ele revela já estar em curso experiência com macacas rhesus para saber se a proteção aos fetos também ocorre em primatas não-humanos, com os resultados devendo sair até o fim deste ano.

Ainda segundo Vasconcelos, se tudo correr como planejado em termos regulatórios, logísticos e de recrutamento, já no ano que vem devem começar testes em humanos na chamada fase 1, em que um grupo de 50 a cem pessoas deverá receber os imunizantes para verificação de sua segurança e avaliação inicial de sua eficácia. Novamente se tudo der certo, os pesquisadores requisitarão uma licença rápida para seguir para a fase 2, com ampliação para 300 a mil pessoas nos testes para saber se as vacinas de fato conferem imunidade ao vírus em humanos. Caso positivo, daí ainda serão necessários testes finais, a fase 3, com um número bem maior de voluntários, de 15 mil e 20 mil, antes de as vacinas serem colocadas à disposição da população, entre 2021 e 2022.

Fonte: [1]




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