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Humanização e Trabalho na Enfermagem

A ABEn Nacional [1], no ano de 2002, propôs a discussão do tema “humanização e trabalho: razão e sentido na enfermagem” durante as comemorações da Semana de Enfermagem. Por acreditarmos ser este um tema bastante instigante e, face aos problemas de uma prática de enfermagem cada vez mais tecnificada e especializada, que submete o conhecimento a um infindável fracionamento, salientamos a necessidade do resgate de algumas questões fundamentais ao desenvolvimento do trabalho da enfermagem, dentre elas a humanização.

Humanização e Trabalho na Enfermagem

Humanização e Trabalho na Enfermagem. Foto: Divulgação.

Vale salientar que as questões relacionadas à humanização, de uma forma ou de outra, com diferentes abordagens e referenciais, sempre estiveram presentes no trabalho da enfermagem.

Pensar na relação humanização/trabalho em enfermagem nos remete a duas diferentes formas de abordar o assunto. Podemos estar nos referindo à humanização do trabalho de enfermagem ou ao trabalho humanizado da enfermagem. No primeiro caso, estaríamos nos referindo ao desenvolvimento de uma assistência de enfermagem humanizada e, no segundo, a um processo de trabalho que humanize as relações do trabalho de enfermagem. Nos dois casos estaríamos falando da razão e do sentido que esses conceitos abarcam na profissão enfermagem, pois a enfermagem é, essencialmente, cuidado, e cuidado prestado ao ser humano, individualmente, na família ou na comunidade.

Cuidado de Enfermagem

Portanto, ao falarmos em cuidado de enfermagem ao ser humano (seja voltado para a assistência ou para as relações de trabalho) implica, essencialmente, em cuidado humanizado. Contudo, é importante ressaltar que, muitas vezes, devido à sobrecarga imposta pelo cotidiano do trabalho, a enfermagem presta uma assistência mecanizada e tecnicista, não reflexiva, esquece de humanizar o cuidado justamente por entender que em si o cuidado deve ser humanizado. Da mesma maneira, as relações de trabalho, em função de fatores internos e externos à enfermagem, vêm se dando de modo pouco humanizado, interferindo diretamente na própria assistência.

Como é possível ao trabalhador cuidar de maneira humanizada, se ele próprio não habita em meio humanizado? Essa forma de conduzir as ações de enfermagem dá origem a um dos grandes obstáculos hoje presentes no interior da profissão que é a forma estereotipada e naturalizada com que a enfermagem, muitas vezes, apreende seu objeto de trabalho e presta assistência. A naturalização de um ato ou de um fato é altamente danosa para a libertação e para a transformação e a concepção de “coisas e pessoas forjadas segundo sua natureza permite exercer dominação sobre elas, sem que de fato os dominados tenham consciência de que ela ocorra”.

A convergência entre humanização e trabalho na enfermagem não pode ser vista como mais um modismo no interior da profissão como se agora esse fosse o aspecto mais importante da assistência, de modo a não cairmos mais uma vez no velho dilema da perda de referências da especificidade da profissão.

A enfermagem já caiu nessa armadilha: no início da profissão, o fio condutor dos cursos de graduação em enfermagem foi essencialmente pautado em aspectos tecnicistas. Posteriormente, com a inserção de referenciais especialmente da psicologia e da psiquiatria, a enfermagem coloca as técnicas em segundo plano e a essência da profissão passa a ser o apoio emocional e psicológico na realização do cuidado de enfermagem como se fosse possível desvincular o físico do psicológico.

Acreditamos que nós, profissionais da enfermagem, não conseguimos compreender e dar a devida importância a ambos no processo assistencial aos usuários e, ao invés de trazer esses conhecimentos como interdependentes e complementares para a construção de uma assistência humanizada e integral, perdemos essa perspectiva e com ela perdemos, também, a possibilidade de ampliar os instrumentos de trabalho com vistas à qualidade da assistência e a tão propalada assistência integral que permeia o discurso e, por que não dizer, a prática dos enfermeiros no interior da profissão.

É claro que a prática e o discurso nem sempre estão em consonância, mas é preciso fazer justiça à enfermagem, que reconhecidamente desenvolve uma prática diferenciada dos demais trabalhadores da saúde, quando se trata da relação com o usuário. No entanto, precisamos ter mais cautela e um olhar mais crítico em torno dessas questões para que não venhamos a descaracterizar a profissão com modismos e/ou com naturalizações que possam se tornar empecilhos à nossa práxis.

No nosso ponto de vista, tanto a humanização da assistência de enfermagem quanto a humanização das relações de trabalho de enfermagem surgem de uma necessidade social e historicamente construída, não como mais um modismo da profissão que tenta colocar essa temática em voga em si mesma, mas como um dos aspectos do trabalho da enfermagem que contribui, significativamente, para a construção de uma assistência de qualidade.

É direito de todo cidadão ter acesso ao atendimento público de qualidade, mas para isso faz-se necessário a melhoria do sistema de saúde como um todo. Dois aspectos nos parecem fundamentais para a construção da humanização no trabalho da enfermagem. Um deles está vinculado à qualidade do relacionamento que se estabelece entre os profissionais de saúde e os usuários no processo de atendimento à saúde e o outro está vinculado às formas de gestão dos serviços de saúde. Assim, os requisitos básicos colocados para o desenvolvimento de uma assistência humanizada e de qualidade incluem o compromisso da liderança do serviço, a qualidade da gestão, a competência e a criatividade da equipe.

Humanização da Assistência de Enfermagem

Quanto à humanização da assistência de enfermagem [2], é fundamental agregarmos à competência técnica e científica uma ética que considere e respeite a singularidade das necessidades do usuário e do profissional, que aceite os limites de cada um na situação que requer a produção de atos em saúde.

A racionalidade dos processos tanto de humanização da assistência quanto de humanização das relações de trabalho da enfermagem vão ao encontro da construção de uma “cultura organizacional pautada pelo respeito, pela solidariedade, pelo desenvolvimento da autonomia e da cidadania dos agentes envolvidos e dos usuários”(2:12).

Trata-se de produzir atos em saúde que levem em consideração o respeito ao outro como um ser autônomo e digno, que busquem compreender os limites dos sujeitos envolvidos nessa relação, as singularidades de cada um, bem como as especificidades das necessidades apresentadas em cada momento em particular.

Humanizar em saúde é uma via de mão dupla, pois é um processo que se produz e reproduz na relação usuário profissional. Contudo, não é possível esperarmos da equipe de saúde uma assistência humanizada aos usuários quando as condições de trabalho são precárias, quando há falta de pessoal, sobrecarga de trabalho e pressões no interior do mundo do trabalho que deixam as pessoas nos seus limites físicos e psíquicos. Essas condições, também, foram historicamente determinadas pela evolução do trabalho em saúde e produzem bloqueios no avanço intelectual da enfermagem, assim como de outros profissionais. Agem como camisas de força que engessam a criatividade dos profissionais. A ausência de mecanismos que assegurem a reflexão cotidiana do processo de trabalho pode ser indício da falta de qualidade em alguns serviços, assim como um desestímulo às lutas por melhores condições de trabalho.

Processo de humanização

Se compreendemos que o processo de humanização se produz e reproduz nas relações entre profissional e usuário e profissionais entre si e, que essas relações são estabelecidas nos ambientes de trabalho, é importante levarmos em consideração o contexto em que essas relações se dão. Para tanto, precisamos saber quem são nossos usuários; quem são os profissionais que estão atendendo; quais são as instituições que estão produzindo atos em saúde; qual a filosofia da organização do trabalho dessas instituições; quais as instituições que formam os profissionais que atuarão no setor saúde. Esses aspectos poderão nos dar parâmetros para a reflexão acerca da atual forma de organização do trabalho em saúde e a forma como a humanização deste trabalho vem sendo implementada no cotidiano da produção das ações em saúde.

Além de considerar as relações entre os sujeitos, profissionais e usuários, humanizar exige considerar novas formas de gestão das instituições de saúde, o que implica sensibilização dos dirigentes das instituições e dos idealizadores das políticas de saúde com o tema proposto. É preciso um compromisso dos dirigentes das instituições com a qualidade da assistência; investimentos para a melhoria das condições de trabalho; financiamento suficiente do setor saúde para resgatarmos a qualidade da assistência; planejamento, organização e gerenciamento coletivos dos serviços de saúde; meios que permitam a reflexão constante da prática assistencial; utilização de mecanismos de avaliação e reorganização da assistência.

Observamos que, atualmente, existem fatores que impedem uma organização coletiva do processo de trabalho e contribuem para a cristalização de uma organização burocrático-verticalizada que não leva em conta a subjetividade dos sujeitos envolvidos nesse processo. Esses fatores, de acordo com o Ministério da Saúde, incluem tendência à verticalização excessiva; racionalidade gerencial burocrática e formalista; funcionamento isolado dos diversos setores; jogo de interesses e objetivos particulares; carência de comunicação e integração entre profissionais.

Por outro lado, o processo de humanização precisa romper com formas cristalizadas de organização dos processos de trabalho em saúde, traduzidos no que segue:

Assim, humanizar passa a ser responsabilidade de todos, individual e coletivamente; jamais estará dada, sendo preciso reconstruí-la em todos os atos em saúde, quer aqueles burocrático-administrativos (gestão), quer aqueles relacionais. Humanizar no setor saúde é ir além da competência técnico-científica-política dos profissionais, compreende o desenvolvimento da competência nas relações interpessoais que precisam estar pautadas no respeito ao ser humano, no respeito à vida, na solidariedade, na sensibilidade de percepção das necessidades singulares dos sujeitos envolvidos.

A ação técnico-científica se realiza com a valorização da dimensão humana e subjetiva dos sujeitos, se realiza na dependência de uma relação intersubjetiva que repercute em todos que dela participam. A subjetividade é entendida como produção de sentido, com potencialidade de criação e não meramente como algo vago relacionado à introspecção individual. Subjetividade está relacionada a processos contínuos de criação de singularidades.

No processo de produção capitalista há uma tentativa de gerar um tipo de subjetividade: homogeneizadora das diferenças, que são produzidas via mídia. Entender esse contexto é importante para que não homogeneizemos a assistência e as relações entre as pessoas na enfermagem, mas busquemos, na intersubjetividade, construir o processo de humanização.

Essa condição é necessária não só para atender às necessidades emergidas no chamado mercado de trabalho, mas para resgatar o princípio básico do ser humano que é o direito de ser tratado como tal, de ser atendido em suas especificidades, suas singularidades, sua subjetividade. Embora existam experiências isoladas de humanização, precisamos promover a ampliação de experiências dessa natureza, trazê-las ao cotidiano do trabalho como um dos aspectos tão importante quanto a competência técnica, a competência científica e a competência política.

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