15/05/2019

Enfermagem: Quem Cuida Também Precisa de Cuidados

Expõe os problemas psicológicos e físicos que devem ser considerados e tratados com atenção pelos profissionais da área da Enfermagem.

Infelizmente, é cada vez mais comum lermos noticias sobre casos de problemas psicológicos e físicos dos profissionais da área da Enfermagem. Seja pela carga horária, o ambiente ou as condições de trabalho, o fato é que não somente as doenças provenientes do esforço diário, mas também da saúde mental afetam esses trabalhadores. Em situações mais extremas, alguns deles chegam até a cometer suicídio.

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Dados são do Conselho Federal de Enfermagem

Isso também significa que quem cuida do outro está suscetível as patologias humanas. Por tal motivo, esses episódios devem ser considerados como um alerta, além de um motivo para que as autoridades responsáveis estejam atentos às demandas e aos anseios da classe.
Vale ressaltar que, atualmente, no Brasil, existem 413.763 auxiliares, 1.206.406 técnicos e 521.454 enfermeiros atuando na área. Os dados são do Conselho Federal de Enfermagem e indicam o quantitativo de profissionais distribuídos em todo o território brasileiro.
Em 2016, uma pesquisa publicada pelo site americano Business Insider em parceria com o Bureau Labor Statistic, identificou quais as 20 profissões mais estressantes. Entre elas, dez estavam ligadas aos profissionais da área de saúde. A função de técnico de enfermagem apareceu na 19° posição.
Há 25 anos, a enfermeira Nice Carvalho trabalha como enfermeira. Para ela, a enfermagem adoece e ninguém vê. Isso porque, o convívio com a doença, a tristeza e as perdas se agravam diante das péssimas condições de trabalho.
“Não temos concursos, trabalhamos em regime de plantões pesados por falta do dimensionamento de profissionais. Além disso, as horas são pouco valorizadas, tornando nossa jornada sobrecarregada e a beira de uma explosão. Nós também precisamos de cuidados, de atenção à nossa valorização. Enquanto enfermeiros, a classe precisa de investimento. Afinal, juramos o cuidado integral as pessoas que necessitam de cuidados”, relembrou Nice.
Ela ainda ressaltou que a enfermagem está padecendo com as estatísticas de suicídio. Para Nice, a questão precisa ser abordada pelo Conselho Regional de Enfermagem do RJ (COREN) com ações de fiscalização e estudos psicológicos, pois o assunto tem virado rotina e as mortes são cada vez mais comuns.
“Contamos com um expressivo número de absenteísmo e licenças relacionadas à saúde. Consequentemente, isso aumenta a carga dos plantões. A enfermagem pede socorro, cuidado e valorização”, alertou a profissional.

Entre a vida e a morte

Para a psicóloga Marlene Nasser, é importante avaliar alguns aspectos relacionados ao assunto. Ela acredita que, de uma maneira geral, o suicida é alguém que deseja se vingar da vida, de algo que não teve ou de problemas mal resolvidos.
“Geralmente, aquele que pensa em se matar é alguém que não conseguiu elaborar suas raivas, decepções e, principalmente seus vazios. No caso do profissionais de saúde, por exemplo, existe a questão do estresse e do sono. Diariamente, esses profissionais lidam com a vida e a morte. Afinal, qualquer erro pode ser fatal e pode significar o fim da vida do outro”, explicou Marlene.
Em relação ao sono, a psicóloga ainda ressaltou a importância do descanso para a viabilização dos sonhos. Marlene afirmou que o ser humano precisa sonhar para que possa elaborar tudo o que está sendo processado pelo inconsciente durante toda a vida.
“Os sonhos projetam não somente o que captamos ao longo da vida, mas também os resíduos de um dia. O sono existe para proteger os sonhos, pois precisamos sonhar. Nem sempre lembramos, mas isso acontece todos os dias. Se as horas de sono não são suficientes e não atingem uma profundidade essencial, o indivíduo acaba ficando mal psiquicamente, o que acaba se refletindo na saúde como um todo”, disse.
Contudo, Marlene destaca que não necessariamente o suicídio de um profissional da saúde pode estar ligado ao ambiente de trabalho. É possível que outros fatores somados aos estresse da profissão potencializem os impulsos suicidas.
“Ao longo da vida, vamos construindo nossa base como seres humanos. Durante esta jornada, vivemos viradas importantes que definem as escolhas. Inclusive, a profissional. Portanto, o impulso suicida é anterior a qualquer momento seja qual for o tipo de trabalho. Certamente, ele é acionado por diversos aspectos que podem estar além da profissão. É algo que está mal estruturado e desencadeia um efeito dominó”, concluiu a especialista.

Em limites epidêmicos

Dorisdaia Humerez é coordenadora da Comissão Nacional de Enfermagem em Saúde Mental. Para ela, a organização do trabalho da enfermagem juntamente com a carga horária extensa, os baixos salários são agravantes para esses profissionais. Além disso, a vivência  lado a lado com o sofrimento humano, a morte e a dor de familiares somados aos problemas pessoais também afetam a enfermagem. Afinal, como seres humanos a classe está suscetível a desesperança, a depressão, as tentativas de suicídio que se refletem nestes índices negativos.
“O Cofen enxerga essa questão de forma preocupante, considerando que o sofrimento emocional dos profissionais de enfermagem está em limites epidêmicos. Por isso, para melhorar os possíveis aspectos que possam influenciar os profissionais negativamente, foi criada a Comissão Nacional de Enfermagem em Saúde Mental e outros grupos em todos estados para buscar atender a todos. Temos discutido em eventos estratégias para minorar o sofrimento. Oferecendo apoio pessoal a quem procurar e buscando criar grupos dentro dos locais de trabalho.Temos lutado fortemente para melhorar as condições de trabalho”, afirmou Dorisdaia.
Fonte: [1]



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